6 de setembro de 2009

Michael Morre ataca de novo ...

por Luiz Zanin, Seção: Cinema, Festivais 03:21:55.

O Festival de Veneza pegou fogo com a apresentação de Capitalism – a Love Story (Capitalismo – uma História de Amor), do performático diretor Michael Moore, que concorre ao Leão de Ouro, prêmio máximo da mostra veneziana. Em suas obras anteriores, Moore havia feito críticas pontuais ao seu país, como o direito ilimitado de porte de arma (Tiros em Columbine), os efeitos da paranóia antiterrorista decorrente do 11 de setembro (Fahrenheit 11 de setembro), a saúde privatizada (Sicko). Agora, Moore vai direto ao coração do sistema, para demolir alguns dogmas do capitalismo, como o direito ilimitado de propriedade, a livre concorrência e a auto-regulação dos mercados. Retórico, e com desfecho ao som de uma versão estilizada da Internacional, o filme foi muito aplaudido em sua estreia mundial.

Moore lembra dos males do capitalismo em seu país a partir de uma memória de infância, quando uma fábrica em sua cidade natal, Flint, foi fechada e jogou milhares de trabalhadores no desemprego. Atravessa décadas para se debruçar na recente crise econômica, com a derrocada de gigantes como Lehmanns’s Brothers, a seguradora AIG, a Meryl Lynch, fruto da especulação sem limites que tomou conta do mercado financeiro mundial. Moore ouve financistas e políticos e procura entender o que motivou tamanha crise. Não chega a conclusão técnica alguma, mesmo porque as pessoas não sabem explicar o que aconteceu no mercado financeiro. No entanto, conclui, a verdade parece simples e crist: foi o excesso de cobiça, aliado à ausência de regras, que levou à crise da subprime, que ainda não foi debelada de todo, apesar do gigantesco aporte de divisas do governo norte-americano e de outros países, na tentativa de salvar as instituições bancárias.

À sua maneira desenvolta, Moore tenta entrar nos edifícios de corporações poderosas, como a GM, mas é barrado. A arrogância dos executivos é contrastada com o fato de a tradicional empresa ter ido à falência, varrida pela crise. Moore vai aos poderosos, mas entrevista também muita gente que perdeu suas casas, devoradas pelas hipotecas. E mostra cenas de Nova Orleans depois da passagem do furacão Katrina, se perguntando por que são apenas os pobres atingidos por aquelas catástrofes de não os poderosos do mundo. O discurso, óbvio, é antirrepublicano até a medula.

Lembra que, durante a campanha presidencial, Barak Obama foi chamado de socialista. “Mas quanto mais o acusavam de socialista, mais Obama crescia na preferência do eleitorado”, diz. O filme mostra uma esperança muito grande no governo de Obama, como uma possível nova era para os Estados Unidos. E recorda que um país mais justo é uma antiga aspiração, não de socialistas e comunistas, mas dos melhores políticos do país – em especial o presidente Franklyn Delano Roosevelt que, pouco antes de morrer, em abril de 1945, havia proposto uma nova carta de direitos dos cidadão americanos, que não pôde ver implementada. Esses direitos fundamentais, próprios do welfare state, acabaram vingando mais na Europa do que na América. De acordo com Moore, os assessores técnicos de Roosevelt, que foram à Europa participar da reconstrução do continente destruído pela guerra, lá encontraram terreno mais propício para suas ideias sociais do que em seu próprio país.

Embora termine de maneira provocante ao som da Internacional, Capitalismo – uma História de Amor não se parece em nada a um tratado de ideias marxistas. É uma crítica devastadora ao capitalismo selvagem e ao neoliberalismo. Soa mais como um apelo – ou um panfleto, talez– em prol de um aperfeiçoamento do próprio capitalismo. Um capitalismo com face humana, digamos. Algo que vai ao encontro das ideias de Obama, e de políticos reconvertidos às virtudes de controle do Estado após o tsunami financeiro de 2008.

Fonte

3 de setembro de 2009